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A história incrível do carteiro que construiu um castelo com as pedras da rua

A história de Ferdinand Cheval que ficou conhecido como figura da arte naïve estreia no cinema na quinta-feira, 25 de abril.

Joseph Ferdinand Cheval foi um carteiro que, em 1876, tropeçou numa pedra com um formato estranho – acabou por levá-la para casa. No dia seguinte, foi recolher mais, no mesmo local. Foram necessários dez mil dias, 93 mil horas e 33 anos para Cheval construir o seu “Palácio Ideal”.

Esta é a história verídica do carteiro nascido em 1836, na pequena aldeia francesa de Charmes, e que é agora contada no filme francês “A Incrível História do Carteiro Cheval”, realizado por Nils Tavernier. A produção biográfica, que conta com Jacques Gamblin e Laetitia Casta nos principais papéis, estreia na quinta-feira, 25 de abril, nos cinemas portugueses. Tavernier deu-lhe um toque de humor e de ficção.

Cheval realizava cerca de 30 quilómetros a pé por dia para entregar a correspondência entre Hauterives e Tersanne, na Droma. Foi carteiro de dia e construtor de noite. Passava por tolo entre a vizinhança. Fez a construção sozinho, pedra a pedra. Foi contra a opinião do povo e apelou à liberdade.

Inicialmente guardava as pedras nos bolsos, depois numa cesta e, posteriormente, levava um carrinho de mão. A coleção ficava no jardim. “Para distrair os meus pensamentos, construía em sonhos um palácio feérico que ultrapassa a imaginação, que todo o génio de um humilde pode conceber”, dizia Ferdinand, segundos os registos históricos da “France Culture”.

O carteiro, sem nenhuma experiência ou conhecimento em arquitetura, construiu o palácio que idealizou – o Palácio Ideal, tal como lhe chamou. Deixando-se levar pela imaginação – habitada por diversos animais, assim como personagens da Bíblia, da mitologia egípcia ou da flora exótica –, trouxe para lá uma mistura exuberante que homenageia mesquitas a chalets suíços, passando ainda por templos hindus.

Joseph Ferdinand Cheval

Aos 12 anos, Cheval abandonou os estudos para se tornar aprendiz de padeiro, após a morte da sua mãe. Pouco tempo depois também ficou sem pai. Mais tarde, trabalhou como lavrador, tornando-se carteiro apenas em julho de 1867. Dois anos depois, pediu transferência para Hauterives, onde tudo começou.

Já viúvo de Rosalie Revol, casou com Claire-Philomène-Richaud, com quem teve Alice – que morreu aos 15 anos. De Revol ficou Cyril, fllho que deixou à guarda dos padrinhos. Desse filho, teve duas netas, as herdeiras do Palácio Ideal, que acabaram por vender as suas partes do empreendimento à cidade e, desde 1994, é propriedade de Hauterives.

No filme, o palácio surge como prenda para a sua filha Alice, mas a construção começou um pouco antes do seu nascimento.

De uma obra de tolo a monumento histórico

Não sendo arquiteto nem empreiteiro, o carteiro aprendeu sozinho e inventou formas inéditas, na mesma altura em que o espanhol Antoni Gaudi (1852-1926) trabalhava dia e noite na Sagrada Família, em Barcelona – apesar de diferentes, são dois homens considerados percursores da arquitetura orgânica e utópica. A diferença é que a obra de Cheval ficou acabada antes de ele morrer.

A história incrível do carteiro que construiu um castelo com as pedras da rua
Cheval carregava pedra a pedra para construir o Palácio Ideal.

O Palácio tem 12 metros de altura, 26 metros de comprimento e as pedras estavam unidas com cal, argamassa e cimento. Após 57 anos da sua construção, o projeto foi classificado como Monumento Histórico por André Malraux – um escritor francês e reconhecido como dos maiores pensadores da época –, que disse ser “o único exemplo de arquitetura de arte naïve”.

A obra de Ferdinand Cheval inspirou Pablo Picasso, Max Ernst ou André Breton. Robert Doisneau e Henriette Grindat fotografaram-no. Alguns veem a construção como uma obra de arquitetura surrealista, outros uma referência mundial de uma arte em bruto ou um exemplo de arte naïve.

Em vida, o carteiro nunca teve reconhecimento oficial pelo seu Palácio Ideal, nem pelo túmulo que passara mais oito anos a construir. Cheval quis ser sepultado no seu palácio, mas as autoridades da época opuseram-se e edificou um mausoléu no cemitério de Hauterives, onde permanece sepultado. Morreu com 88 anos, a 19 de agosto de 1924.

Apesar de ter mais de um século, o Palácio Ideal conseguiu escapar ao esquecimento. Pode ser visitado nos dias de hoje, em França, num local por onde passam mais de 150 mil visitantes por ano.

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