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Rui Miguel Tovar. A enciclopédia da bola conta tudo sobre os maiores goleadores

Seguiu o exemplo do pai e tornou-se, também ele, numa verdadeira enciclopédia futebolística. À 4MEN conta como pesquisou e compilou as histórias dos maiores goleadores que passaram por Portugal.

A família era pobre e já tinha três filhos. A mãe, cozinheira, e o pai, jardineiro, não tinham condições para criar mais uma criança, por isso o aborto era a saída possível. Não aconteceu e o bebé nasceu, em fevereiro de 1985, em Santo António, o bairro mais pobre da Madeira. Hoje, o bebé tornou-se num homem e é um dos melhores e mais bem pagos futebolistas do mundo.

Esta história é o retrato da vida de Cristiano Ronaldo, mas podia ser o de tantos outros jogadores, particularmente dos grandes goleadores portugueses. “Essa ligação com o nascer num meio pobre, crescer num meio pobre e depois tornar-se uma estrela nacional e internacional é aquilo que une todos. Não há exceção nenhuma, eles nasceram num meio desfavorável e conseguiram ultrapassar todas as dificuldades para se tornarem famosos”, conta à 4MEN Rui Miguel Tovar, autor do livro “Fome de Golo”, lançado em dezembro.

O livro conta a história dos 20 maiores goleadores do futebol português. Depois de investigar a vida dos craques, o jornalista traça o que os une: “Nasceram pobres, tinham jeito para o futebol e agarraram-se àquilo porque sabiam que aquilo era a sua profissão. Dito agora parece fácil, porque o futebol é uma profissão que dá muito dinheiro, mas nos anos 40, 50, 60, havia uma paixão diferente pelo jogo porque o futebol não dava assim tanto [dinheiro], mas eles sentiam-se felizes a jogar”.

Conhecido pelos seus comentários sobre futebol e pelas memórias que tem deste desporto, a paixão de Rui Miguel Tovar pela bola começou quase no berço. “Tem a ver com o meu pai [o célebre jornalista desportivo Rui Tovar]. Ele trabalhava na RTP e a minha maior aventura era ao fim de semana conseguir ir com ele para lá, o que nem sempre acontecia porque tinha que estudar”.

Com apenas seis ou sete anos já corria os estádios atrás desse amor pela bola: “O meu pai foi sempre um passaporte fácil para entrar nos campos de futebol. Ele ia muitas vezes em trabalho e quando o jogo não era muito grande, mais calmo, o meu pai levava-me”.

Rui Miguel Tovar, autor do livro “Fome de Golo”

Seguiu as passadas do pai e começou a juntar memórias e conhecimentos sobre futebol com os quais hoje surpreende o público: “A maior parte das crianças gosta de futebol e quando estamos em contacto muito de perto com a bola, ficamos todos entusiasmados e por isso [o gosto pelo futebol] foi crescendo. Ainda por cima o meu pai fazia coleções de jornais e revistas internacionais de futebol e isso facilitou a minha paixão, que se tornou cada vez maior”.

Uma das características do jornalista é mesmo a memória prodigiosa e o conhecimento de factos e números ligados ao futebol, mas há um momento que ficou bem gravado na memória. “O que me lembro mais é do golo do Jordão à França em 1984. Tinha 7 anos. O meu pai estava a fazer o jogo em Marselha e eu estava a vê-lo com a minha mãe, na sala de casa. Portugal esteve a perder 1-0, empatou, no prolongamento fez o 1-2 e lembro-me que a minha mãe, ao levantar-se para comemorar o golo, pisou a saia e rasgou-a. E lembro-me do festejo, que ainda hoje considero como um dos festejos mais emblemáticos do futebol: o Rui Jordão com o braço direito no ar e a saltar, pé direito, pé esquerdo, no mesmo sítio”.

Quem são, afinal, os maiores goleadores que passaram por Portugal?

No livro “Fome de Golo”, Tovar compilou os nomes dos 20 maiores goleadores da história nacional, mas chegar a este número não foi tarefa fácil. Primeiro, os critérios foram “puramente estatísticos” e foram selecionados aqueles que tinham mais mais golos oficiais marcados “no campeonato nacional, na Taça de Portugal, na seleção nacional e nas competições europeias”. No final desta pesquisa, percebeu que havia um denominador comum nesta lista: “Curiosamente, todos eles tinham mais do que 400 golos. Então fiquei logo satisfeito por limitar a fasquia e dizer: ‘Aqui só entram jogadores com mais de 400 golos’”.

Se nomes como Peyroteo, Eusébio, Fernando Gomes, Pauleta ou Cristiano Ronaldo parecem óbvios, há no livro goleadores mais desconhecidos da maioria dos adeptos. “À medida que fomos aprofundando o assunto, comecei a aperceber-me que tinha que incluir dois jogadores que são mais sentimentais. São dois jogadores que sempre me apaixonaram e, embora não tivessem mais de 400 golos – estavam nos 390 e pouco –, decidi que ia pôr um pouco de coração nesta obra estatística. Foi aí que apareceram o Jorge Mendonça e o Yekini”, revela o autor de 41 anos.

“Todos aqueles goleadores sofreram imenso para chegar onde chegaram. Fosse o Ronaldo ou o Eusébio, não interessa a época porque as pessoas, quando nascem pobres e num meio desfavorável, continuam por lá por muitos anos e quando sobressaem é porque, de facto, têm uma história de vida valiosa”.

Esta é uma das justificações para que apareçam os dois nomes extra nesta lista. Já há algum tempo que o jornalista queria escrever sobre eles, mas ainda não tinha encontrado forma de incluí-los numa das suas obras. Até agora. “O Yekini e o Jorge Mendonça também tinham esse lado. Sobretudo o Yekini, que teve uma infância altamente infeliz – mais infeliz do que todos os outros –, porque passou-a sozinho, literalmente”, diz.

Yekini, antigo jogador do Vitória de Setúbal

O processo de pesquisa de cada um dados e histórias pode parecer uma tarefa complexa, mas não para Rui Miguel Tovar: “Esse lado parece difícil mas não é porque o trabalho estava facilitado pelo meu pai”. Com a parte estatística já tratada pelos dados e biblioteca que herdou do pai, o jornalista teve que recorrer a antigos colegas ou familiares dos jogadores para descobrir mais histórias sobre cada um deles. E foi mesmo o jogador nigeriano quem mais surpreendeu o autor.

“Em matéria de surpresa, o Yekini dá 10-0 aos outros, porque dos outros todos eu já tinha algum conhecimento através do arquivo do meu pai ou do que conhecia. Felizmente fui para Setúbal e encontrei companheiros dele que jogaram juntos no clube. E um senhor chamado Tomé, que jogou no Vitória nos anos 70 e também no Sporting, tinha um livro sobre o Yekini escrito por um nigeriano. Isso permitiu-me entrar na vida dele”.

Os que ficaram de fora

Olhar para a história do futebol português e pensar em apenas 20 goleadores não é fácil, principalmente se tivermos em conta que esta lista tem nomes com mais de 100 anos. “Há uma série de jogadores que têm obra feita, não só em Portugal mas também no mundo, e que mereciam destaque. O problema foi excluir e não incluir, portanto, os 20 até foram fáceis de encontrar”, explica o escritor.

Há um jogador que é o Julinho, jogou no Benfica nos anos 40 e tem mais golos do que jogos no campeonato nacional e na Taça de Portugal. Só isso é um feito enorme. Dos mais recentes, por exemplo o Jackson – que eu sempre admirei – que foi do FC Porto; o Cardozo do Benfica, também era um jogador formidável que marcava sempre e muitas vezes e não fugia aos jogos com os grandes. Havia um jogador que era um goleador, mas não era um homem que tivesse mais de 400 golos, o Guilherme Espírito Santo, e o próprio Peyroteo dizia que era melhor jogador do que ele”.

Tendo em conta que os nomes estão todos dispostos por ordem cronológica, há um mistério que fica no ar: quem seria o 21.º, ou seja, o jogador que viria depois de Ronaldo. “Há-de estar aí a jogar futebol, mas eu não sei. Se já nasceu, ainda não deu nas vistas. Mas também, marcar mais de 400 golos é muita coisa, são precisos muitos anos e muita pontaria”.

Com mais de 13 livros publicados sobre futebol, o jornalista já se aventurou nos almanaques de FC Porto, Benfica, Sporting e da Seleção nacional, livros com histórias, dicionários e até sobre os cromos da bola em Portugal. Ideias não faltam para as próximas publicações, mas há um sonho de Rui Miguel Tovar que é mais imediato do que os outros.

“Gosto muito dos almanaques, que é montar a história dos clubes através dos seus jogos desde a sua fundação até aos dias de hoje. Diria que um dos projetos que ainda não me saiu da cabeça é o do Belenenses. Faz 100 anos em setembro de 2019 e gostaria muito de fazer o livro do centenário. Mas isso vai custar-me muitos dias porque é preciso passar muito tempo agarrado à hemeroteca e fazer todos os jogos do Belenenses desde 1919 até agora. Ainda por cima é o clube do meu avô materno e ia muito ao Restelo com ele. É também o clube de um tio meu da parte do meu pai e há este lado familiar. Gostava de dar uma alegria às duas famílias e juntar estes dois lados”.

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