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A história dramática da castração que chocou (e divertiu) o mundo

Lorena castrou o marido e foi alvo de todas as piadas. O caso escondia um passado de abuso e violência, agora divulgado numa nova série documental.
O triste caso de violência doméstica tornou-se numa punchline

A 23 de junho de 1993, Lorena Bobbitt levantou-se da cama durante a madrugada, foi à cozinha buscar uma faca e cortou o pénis do marido enquanto ele dormia. O caso que aconteceu numa pequena cidade do estado da Virginia chocou os EUA e transformou o casal num fenómeno mediático. A história dá agora origem a uma série documental produzida por Jordan Peele, vencedor de um Óscar em 2018 com “Foge”. “Lorena” fez a estreia na Amazon a 15 de fevereiro, em quatro episódios de uma hora.

Lorena e John casaram a 18 de junho de 1989 e eram aparentemente felizes. Quatro anos depois, a relação fez manchetes nos jornais pelas piores razões. À data do crime, o casal já tinha decidido separar-se, mas na noite fatídica, Wayne voltou para casa após uma noite de copos e foi para o quarto onde Lorena dormia. Segundo a mulher, o marido violou-a antes de adormecer – e de acordo com os seus relatos, não era a primeira vez que isso acontecia. No testemunho em tribunal justificou o ato por estar cansada dos sucessivos maus-tratos e das violações do antigo fuzileiro da marinha norte-americana.

Lorena nasceu no Equador, cresceu na Venezuela e mudou-se para os EUA em 1987 à procura do sonho americano. Um ano depois de se matricular na Universidade Comunitária da Virginia do Norte conheceu John Bobbitt, quando era ainda uma jovem virgem de 18 anos e ele um fuzileiro de 21 anos, de corpo atlético e olhos azuis. Passavam apenas dez meses quando Bobbitt mergulhou para o fundo de uma piscina para ir buscar um anel de noivado. Lorena aceitou o pedido daquele que foi o seu primeiro e, até à época, o único namorado.

Um mês depois do casamento, numa viagem de regresso a casa, Lorena pediu a John que parasse o carro. O marido estava embriagado. Recusou e agrediu a mulher. Foi a primeira vez que foi agredida, mas não a última. Seguiram-se anos de abusos que conduziram, segundo a esposa de Bobbitt, à noite da castração.

Após castrar Bobbitt, Lorena saiu de casa com o pénis do marido e lançou-o pela janela do carro, antes de procurar refúgio em casa de uma amiga. Uma coisa é certa: ao contrário do que seria expectável, os abusos e a violência doméstica não se tornaram no tema central do caso e a equatoriana acabou por ser o alvo de todas as piadas. Foi “o corte sentido em todo o mundo”, conforme revelou à época o tema de capa da revista “People”. Já John, soube aproveitar o melhor da situação.

A vida famosa do homem do “Frankenpenis”

O pénis de John foi reimplantado após uma longa cirurgia que durou quase dez horas. Dispensado dos Marines em 1991, o caso tornou-o numa espécie de celebridade. Aparecia em talk shows e tornou-se num convidado recorrente do famoso programa de rádio de Howard Stern. O locutor fez dele a estrela num Especial de Ano Novo, ainda no mesmo ano do crime. No programa especial de angariação de fundos, surgiu mesmo uma réplica de um pénis gigante a ser acariciado sugestivamente por uma modelo em topless. À medida que o dinheiro se acumulava, também ele crescia.

Bobbitt quis criar uma banda de música com o nome Severed Parts – membros amputados, em tradução livre – e chegou a assinar T-shirts com uma caricatura da ex-mulher a segurar uma faca. O projeto musical foi um fracasso e teve que mudar de área. Em 1994 torna-se num ator de cinema pornográfico e lança o seu primeiro filme, “John Wayne Bobbitt: Uncut”, que se transforma num enorme sucesso em VHS. Acabou por se tornar no filme para adultos com maior receita de bilheteira nesse ano.

O maior sucesso ainda estava para chegar. “Frankenpenis”, lançado em 1996, é uma espécie de biografia em versão porno, que conta a história de um homem castrado ao qual é reimplantado um “super pénis”. O ex-fuzileiro estava tão dedicado que, para brilhar no filme, chegou mesmo a fazer uma cirurgia para aumentar o tamanho do seu membro.

A história dramática da castração que chocou (e divertiu) o mundo
Bobbitt fez sucesso como ator de filmes pornográficos. O maior sucesso: “Frankenpenis”

O caso Bobbitt conquistou um lugar na cultura popular, com referências no filme “Clube de Combate” ou no livro “O Teatro de Sabbath”, de Philip Roth, mas também no rap de Eminem em “Evil Twin” (2013). Nem no mundo científico John se livrou da fama: existe mesmo um verme aquático, o eunice aphroditois, que reage com tal rapidez aos estímulos que chega a cortar os seus agressores ao meio – e que passou a ser conhecido como o Verme Bobbitt.

O norte-americano teve igualmente que enfrentar o lado negro da fama. Durante a ascenção meteórica como ator porno, foi preso por espancar a ex-noiva, Kristina Elliott. Na sequência destas agressões, foi condenado a uma pena de prisão de 15 dias por violência doméstica. Em 1999 foi novamente preso, desta vez acusado de roubo, e sentenciado a pena suspensa. O historial é longo: em 2003 voltou a ser condenado por agressão à sua décima mulher; e no ano seguinte mais duas detenções por violência contra mulheres. No documentário da Amazon são feitas mais revelações e mais duas mulheres acusam-no de violação e tortura.

O julgamento

“O que é mais valioso para os senhores? Um pénis ou uma vida?”, perguntou a advogada de defesa ao júri que acabaria por ilibar Lorena e pelo ato cometido sob um estado de “perturbação mental temporária”.

Os dois primeiros episódios da série documental de Jordan Peele cobrem dois julgamentos. No primeiro, John é acusado de agressões sexuais a Lorena. No segundo, é ela quem se senta no banco dos réus para ser julgada por agressão. Ambos foram absolvidos.

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John e Lorena durante o julgamento

Numa das cenas finais da produção, Lorena surge sentada em frente a uma mesa coberta de cartas, todas por abrir e com apenas um único remetente, John. Segundo o “El País“, numa das cartas o ex-marido confessa-se: “Lembras-te quando me disseste uma vez que eu não sabia tratar as mulheres? Bem, tinhas razão”.

“Sem o órgão amputado, este caso não teria valor mediático”, nota o “Washington Post”. Seria só mais um caso de violência doméstica.

A vida depois dos abusos

Ilibada pelo tribunal, Lorena foi internada durante 45 dias para uma avaliação psiquiátrica, na qual os médicos decidiram que ela não representava uma ameaça para si própria ou para a comunidade. Estava finalmente livre, mas não tinha dinheiro nem emprego. “Poderia voltar para a Venezuela e para os meus pais, mas quero que eles venham para cá, para terem uma vida melhor. Não tenho nada, mas ainda tenho meu sonho americano”, disse na altura à “Vanity Fair“.

Acabou por inscrever-se numa faculdade comunitária onde conheceu o companheiro dos últimos 20 anos, David Bellinger, com quem teve a filha Olivia. Em 2007, criou a fundação Lorena’s Red Wagon, uma organização sem fins lucrativos que apoia vítimas de violência doméstica.

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Lorena Gallo dedica-se a ajudar mulheres vítimas de violência doméstica.

Durante o julgamento, Lorena explicou que não queria dar uma lição a John: “Foi sobrevivência. Vida ou morte. Eu temia pela minha vida”, explicou, depois de revelar que o ex-marido havia feito inúmeras ameaças de morte durante a relação.

Hoje, a forma como o caso foi ridicularizado na televisão já não a choca, e até aceita as piadas. “Valem a pena enquanto houver uma mulher que a oiça e à qual possa dar esperança”, revelou ainda à revista norte-americana.

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