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A incrível história do estudo que inspirou o melhor episódio de “Black Mirror”

O autor Charlie Brooker inspirou-se numa série da "BBC". Mas é preciso recuar a 1979 para descobrir o estudo de Harvard que tentou tornar os idosos mais jovens – e conseguiu-o.

San Junipero, uma pequena vila na Califórnia. Ano de 1987. Música. Rapariga conhece rapariga. Assim começa o quarto episódio da terceira temporada da série de ficção científica “Black Mirror”, aclamado pela crítica como um dos melhores de 2017. A história foi escrita por Charlie Brooker, o criador da série britânica, que revelou finalmente de onde surgiu a inspiração. O segredo está na série de documentários da BBC chamada “The Young Ones”, segundo revelou à “Entertainment Weekly“.

A produção de 2010 baseava-se numa espécie de experiência psicológica na qual um grupo de seis famosos – como a colunista Liz Smith, a atriz Sylvia Syms ou o apresentador Lionel Blair –, com idades entre os 70 e os 80 anos, foram transferidos para uma casa decorada com temas da década de 1970. No local, a música, os utensílios de cozinha e outros objetos domésticos pertenciam à época e o objetivo do estudo era o de perceber que efeito teria este regresso ficcionado ao estilo de vida dos seus anos de juventude.

Os membros do elenco viveram no ano de 1975 durante uma semana e o efeito das primeiras 24 horas revelou mudanças evidentes em cada um deles. O programa mostrava, de certa forma, como o meio ambiente pode ter impacto na forma como envelhecemos. A série da BBC relembra um pouco o filme norte-americano de 1985, “Cocoon”, onde um grupo de idosos passam a sentir-se rejuvenescidos após entrarem na água da piscina de uma casa aparentemente abandonada e passam a ter energia para sair e divertirem-se em festas.

A série documental da BBC “The Young Ones” decorre num ambiente baseado na década de 70.

Esse mesmo documentário do canal britânico foi, na verdade, inspirado numa investigação do Departamento de Psicologia da Universidade de Harvard por Ellen Langer, a líder do estudo, que acredita que a forma como envelhecemos não é inevitável.

A líder do estudo de 1981 acreditava que envelhecer numa casa de repouso  onde as refeições são decididas por outros e os passatempos ocorrem durante horários programadas, não é um ambiente onde as pessoas prosperem. Por isso, decidiu colocá-las num ambiente psicologicamente mais favorável e que os fizesse recordar a melhor fase da sua vida.

Para levar a cabo a experiência, Langer levou oito pessoas na faixa dos 70 para um mosteiro recuperado, em New Hampshire, EUA. Tinham problemas de artroses, carregavam bengalas e arrastaram-se até ao interior. Do outro lado, a voz de Perry Como soava num rádio vintage. O apresentador Ed Sullivan (nos anos 50) recebia os seus convidados numa televisão à preto e branco e toda a decoração e objetos faziam lembrar o ano de 1959. Esta foi a casa das oito pessoas durante cinco dias.

Os participantes estavam de boa saúde, mas envelhecidos, e viveram na nova casa durante cinco dias. Não havia espelhos, nem roupas modernas ou fotos, apenas alguns retratos deles em mais novos – o que lhes dava a ilusão de terem menos 20 anos.

A psicóloga avaliou-lhes níveis de destreza, a flexibilidade, a audição, a visão, a memória e a capacidade cognitiva – marcadores que permitem testar a idade e o estado. O grupo de participantes conversou sobre eventos históricos como se fossem notícias da atualidade, ninguém os ajudava a subir as escadas ou os tratava segundo a idade real.

Após uma semana, revelaram melhorias surpreendentes, seja ao nível de “força física, destreza manual, marcha, postura, percepção, memória, capacidade cognitiva, sensibilidade gustativa, audição e visão”, segundo escreveu a investigadora de Harvard em “Counterclockwise“, um livro onde descreve toda a experiência do estudo.

“The Young Ones” da “BBC” simulou a experiência da cientista. “Foi como se tivessem deitado fora as bengalas”, disse Brooker, revelando o espanto sobre o efeito que teve o espaço redecorado, segundo a estética e a cultura da juventude, nos seis membros participantes. Foi a partir da premissa de “The Young Ones” que Brooke se lançou na ideia de San Junipero. O episódio desenvolve-se numa espécie de realidade simulada, onde quem morre pode ter a sua consciência replicada e carregada numa espécie de servidor, onde vive para sempre, eternamente jovem.

Uma playlist e nove prémios

Tal como o documentário, o episódio leva a experiência até aos anos 80, recriando tudo: dos automóveis até o guarda-roupa. Chegou mesmo a inspirar uma playlist com o mesmo nome, disponível no Spotify, com temas como “Fake”, de Alexander O’Neal; “Heaven Is a Place on Earth”, de Belinda Carlisle; “C’est La Vie”, de Robbie Nevil ou uma versão remisturada de “Girlfriend In A Coma” dos The Smith. Alguns dos temas não estavam incluídos no episódio, por não terem sobrevivido ao final cut da edição.

Aquele que foi considerado como o melhor episódio dessa temporada rendeu, ao todo, nove prémios. “San Junipero” brilhou especialmente na entrega dos Emmy 2017, nas categorias de Melhor Argumento para uma Série Limitada, Filme ou Especial Dramático e para Melhor Minissérie, onde levou as duas estatuetas.

E há boas notícias para os fãs. A série que teve início em outubro de 2016, parece que tem regresso marcado para 28 de dezembro, isto depois de aparentemente, uma imagem alegadamente retirada da página oficial da Netflix, ter a lista das estreias de séries de ficção científica. Nela, consta a menção à 5.ª temporada de “Black Mirror” com a palavra “Bandersnatch” à frente, o que poderá indicar o nome do primeiro episódio. A nova série decorre em Croydon, Londres, onde uma das ruas principais foi transformada numa via dos anos 1980, com lojas como Wimpy Burger e Chelsea Girl.

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