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Os loucos filmes de Yorgos Lanthimos para ver antes de “A Favorita”

O realizador grego é um mestre a criar cenários bizarros. Recordamos as obras antes da chegada do último filme, que estreia esta quinta-feira, 7 de fevereiro.

Três jovens, sem nome, vivem fechados em casa dos pais. Durante toda a sua vida, nunca puseram um pé fora da propriedade vedada onde nasceram. Acreditam que só o poderão fazer quando lhes nascer o segundo dente canino – ou seja, nunca. Não sabem sequer o que é um gato. Quando um lhes aparece de surpresa, ficam apavorados. O filho mais velho resolve o problema cortando-o a meio com uma tesoura de poda. Para manter os filhos encarcerados, o pai avisa-os de que estes animais vagueiam para lá dos muros e comem seres humanos. Este é o cenário macabro saído da mente de Yorgos Lanthimos para o seu filme “Canino”, lançado em 2009.

As desconstruções sociais e o controlo sobre o destino das personagens são o elo comum entre as produções com a assinatura do realizador grego. Depois de “A Lagosta” (2015) e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (2017), o cineasta volta aos cinemas com o seu romance cinematográfico “A Favorita” (2018), que estreia na quinta-feira, 7 de fevereiro.

Parece ter sido com este último filme que Yorgos conquistou Hollywood de vez – a longa metragem valeu-lhe dez nomeações aos Óscares, incluindo na categoria de Melhor Filme e de Melhor Realizador. A produção entra em disputa direta com “Roma” de Alfonso Cuarón, também com o mesmo número de designações.

“A Favorita” é provavelmente a obra do grego que mais se afasta dos ambientes bizarros que caracterizam os seus outros filmes. É uma tragicomédia inspirada na história real da rainha britânica Anne (Olivia Colman), que governou Inglaterra, Escócia e Irlanda entre 1702 e 1707 e, depois, uniu os dois primeiros no reino da Grã-Bretanha. A história centra-se essencialmente na relação de intimidade entre a rainha e Lady Sarah (Rachel Weisz), até a chegada de Abigail (Emma Stone) – uma prima sem dinheiro da duquesa – destabilizar a relação das duas amigas. Ambas lutarão pelo lugar de favorita perante a monarca.

Esta última obra não é propriamente uma biografia, já que alguns dos factos não correspondem à realidade ou não foram sequer confirmados. As três mulheres do elenco principal foram igualmente nomeadas para o Óscar de Melhor Atriz Principal (Colman) e de Melhor Atriz Secundária (Weisz e Stone).

A marca identitária do realizador surge apenas em 2005 com a sua primeira longa metragem a solo, “Kinetta”. É aqui surgem os primeiros traços de desconstrução da lógica, assim como a imprevisibilidade das relações humanas e da sociedade estereotipada, embora seja menos desconcertante do que as seguintes.

Em todas as obras de Lanthimos, as personagens encontram-se perante escolhas moralmente difíceis ou são deixadas sem alternativa. Desde 2009 que as suas mais recentes produções – exceto “Alpes” (2011), que surge entre “Canino” e “O Lagosta” – fazem todas referência a animais, direta ou indiretamente.

Em “Canino”, o pai manda domesticar um cão, sem se perceber qual é o objetivo final da intervenção: se é para que se torne mais dócil ou mais agressivo. Já em “O Sacrifício de Um Cervo Sagrado”, os sacrificados são comparados a um cervo, à semelhança de uma oferenda para um ritual satânico. E em “A Lagosta”, Colin Farrell escolhe transformar-se numa lagosta. Em “A Favorita”, a rainha era dona de 17 coelhos – os seus filhos – e cada um correspondia a uma das crianças que perdeu em gravidezes interrompidas.

As produções do realizador grego provocam sempre um sentimento incómodo de estranheza. Revelam um lado pouco explorado da natureza humana, em histórias marcadas por cores esbatidas e frias. Cada história é narrada a conta-gotas e revela conceitos retorcidos, personagens em sofrimento e cenas de absoluto terror. Antes de correr para o cinema vale a pena rever as três obras mais marcantes e bizarras do realizador.

“Canino”

Foi o filme que internacionalizou o nome de Lanthimos e criou uma espécie de nova vaga no cinema grego. A produção concorreu ao Oscar de 2011 como Melhor Filme Estrangeiro.

Na história, para tentar manter a inocência dos filhos (duas raparigas e um rapaz) de um suposto mundo corrompido, o pai decide mantê-los isolados do exterior numa propriedade no meio do nada e cercada por muros. A televisão só mostra vídeos caseiros. Das colunas, sai apenas a voz de Frank Sinatra, que pai diz tratar-se do avô das crianças – e cuja letra de “Fly Me To The Moon” é convenientemente traduzida para grego pelo próprio.

Os três jovens aprendem novas palavras todos os dias: o mar significava poltrona; uma vagina era uma lâmpada. São educados como se fossem uma experiência dos cães de Pavlov e, claro, devidamente recompensadas com autocolantes.

Vivem sob a promessa que nunca se irá cumprir: só poderão sair de casa no dia que um dos segundos dentes caninos cair. Já a mãe parece ser também prisioneira por opção e nunca discorda dos métodos de educação caseira dos filhos.

A suposta inocência que o pai quer preservar acaba por virar-se contra ele. Para controlar os impulsos sexuais do filho, contrata Christina, a segurança da empresa onde trabalha, para ter relações sexuais com ele. A mulher passa a ser a única estranha que visita a casa e começa, inevitavelmente, a contaminar a mente dos jovens.

Controlados a um nível patológico, o filme leva o conceito de educação doméstica ao extremo. Fica por descobrir se é a curiosidade que acaba por libertar os três jovens.

“A Lagosta”

A produção de 2015 foi primeira obra do realizador em inglês e a incluir atores internacionais como Colin Farrell, Olivia Colman, Rachel Weisz, John C. Reilly ou Léa Seydoux.

“A Lagosta” arrasta-nos para um mundo ilógico, uma sociedade distópica que se subdivide em três ambientes: a cidade, o bosque e uma instituição para onde são levados os solteiros. Isto porque a lei diz que todos devem casar.

David (Farrell) fica solteiro depois de a mulher o abandonar por outro homem. Segundo as regras da cidade, tem de ser transferido para um hotel onde terá 45 dias para se apaixonar. Se fracassar, é transformado num animal à sua escolha para depois ser libertado na natureza ou entregue ao cuidado da família.

David, que chegou com o seu cão – que, na verdade, era seu irmão antes de ser transformado –, escolheu ser uma lagosta. Os motivos eram simples: é um animal com sangue azul e que vive até aos cem anos. A produção surge como uma espécie de metáfora sobre as relações modernas e as pressões da sociedade sobre os que ainda não encontraram um par.

Yorgos explora escolhas difíceis para as suas personagens. Aqui, David terá de optar entre ficar com alguém que não o faz feliz e não ama, ser transformado num animal ou fugir e ser perseguido como um rebelde. Em “O Sacrifício de Um Cervo Sagrado”, essa escolha torna-se ainda mais perversa, tendo em conta que é um pai de família que tem de escolher ficar sem um dos seus membros.

“O Sacrifício de Um Cervo Sagrado”

O penúltimo filme do grego marca o regresso de Colin Farrel, no papel do conceituado cardiologista Steven, como mais uma série de prémios para as mãos do realizador. E ainda juntou ao elenco Nicole Kidman e Barry Keoghan.

Steven, casado com Anna e pai de dois filhos, vê a sua vida marcada por um momento crítico, no qual não foi capaz de salvar a vida de um homem. Entretanto, o médico começa a encontrar-se frequentemente com um adolescente, precisamente o filho do homem que morreu. É ele quem abre o dilema da vida do médico: numa espécie de vingança sádica, exige que Steven sacrifique um dos três membros da família.

Não há como fugir: a ameaça traz uma espécie de maldição. Se Steven não concretizar a promessa, todos eles acabarão por morrer. Primeiro, a paralisia. Depois, a incapacidade de comer. Até à inevitável morte.

O cineasta volta a colocar a responsabilidade do indivíduo e a sua reação à impotência perante uma força maior. É um filme de puro terror psicológico e que consegue acordar os nossos medos mais profundos.

Após esta obra ter revalidado firmemente Yorgos Lanthimos no panorama cinematográfico mundial – e agora consolidado com “A Favorita” –, já podemos falar num cinema lanthimosiano.