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“A maioria dos homens que tem cancro da próstata não sabe que tem a doença”

O urologista Arnaldo Figueiredo falou com a 4MEN para explicar tudo o que precisa saber sobre o problema e como prevenir.

“Se pretendemos diagnosticar o cancro da próstata em fase potencialmente curável, não podemos esperar por sintomas; até porque quando existem, a doença já está em estado avançado e é demasiado tarde”, alerta Arnaldo Figueiredo, médico urologista do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, no dia em que se assinala o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, 4 de fevereiro.

Morrem, por ano, cerca de 2000 homens (dados de 2018), cuja causa identificada é o cancro da próstata. Nos países ocidentais, onde Portugal se inclui, é a segunda doença oncológica que mata mais homens – logo a seguir ao cancro do pulmão – e é, muitas vezes, indetetável até em fases mais avançadas.

O especialista sublinha ainda que “para detetar o carcinoma da próstata numa fase potencialmente curável, teremos de estar disponíveis para procurar a ausência de sintomas”, ou seja, “tomar uma atitude preventiva”.

Segundo Joaquim da Cruz Domingos, presidente da Associação Portuguesa de Doentes da Próstata, pela afluência das chamadas que a entidade recebe, verifica-se que a doença se tornou cada vez mais uma preocupação dos homens. “Nota-se que há menos indiferença, porque os órgãos de comunicação mencionam cada vez mais o tema e os médicos de família já propõem o exame de PSA” (Antígeno Prostático Específico) – o marcador mais comum para avaliar a incidência do carcinoma –, quando os homens chegam à idade de risco, que é à partir dos 40, 45 anos.

No entanto, o presidente da associação conta que mais de 50% das chamadas que a linha de apoio recebe são do sexo feminino. “Grande parte dos telefonemas são realizados pelas próprias mulheres, amigas ou até pelas filhas, porque os homens ainda fazem, disso, um tabu”. Elas ligam para saber o que está a acontecer com o marido, o pai, o tio ou o companheiro, porque os homens não têm coragem de o fazer, são mais reservados”, refere.

Atualmente com apenas 250 membros registados, a entidade apoia socialmente os doentes e desenvolve ações de divulgação. O principal objetivo “é combater a falta de informação” e “tentar alertar os homens para a necessidade de vigiar a sua próstata e de fazerem o exame de PSA”. Joaquim Domingos explica que a maioria apenas procura a organização quando está numa fase crítica. Os doentes registados usam a associação como apoio, mas “quando têm a doença controlada, vão-se desligando a pouco e pouco”.

Do seu lado, o médico Arnaldo Figueiredo sublinha a falta de consciencialização: “Em Portugal o alarmismo é subestimado”. O médico conta que, segundo um inquérito de rua realizado em 2017, centrado sobre a perceção da população portuguesa sobre o tipo de cancro mais comum, “as pessoas apontavam, por larga margem, o cancro da mama – e, em segundo, vinha o do colo retal”. No entanto, “a incidência do cancro da mama é equivalente à do cancro da próstata, em diagnóstico e em mortalidade”, sublinha o urologista. E acrescenta: “A maioria dos homens que tem cancro da próstata não sabe que tem a doença”.

O atual presidente da associação, não se inclui na percentagem. Sempre vigiou a sua próstata, mas descobriu que tinha a doença há dez anos e fala disso naturalmente.

Uma história de sobrevivência

“No meu caso, só me foi diagnosticado o carcinoma quando já tinha 70 anos”, conta Joaquim Domingos que tem agora 80 anos. Quando lhe foi identificada a doença, já andava cuidadosamente a ser acompanhado pela médica de família. A certa altura, esta acabou por encaminhá-lo para um urologista, tendo em conta que a sua próstata tinha “atingido um volume maior do que seria normal”. Ressalva que “o volume tem tendência a aumentar com a idade”, mas “se aumentar mais do que o normal, traz problemas de micção associados”. As consequências são a necessidade de “ir várias vezes à casa de banho” ou, após o ato urinário, “verificam-se perdas de urina já com as calças vestidas”.

O presidente da associação conta que o seu PSA duplicou de 3,5 % para 6%, de um ano para o outro. O médico disse-me logo: “Há aqui qualquer coisa que não está bem e temos de fazer uma biópsia”. O resultado foi positivo e “foi uma sensação terrível”. Relembra a pergunta que lhe surgia repetidamente: “Porquê eu?”.

O médico sugeriu-lhe uma intervenção à base de radioterapia interna, que consiste “na introdução de partículas radioativadas pelo pénis, para se chegar onde se encontra o tumor”. Após o tratamento, “o meu PSA baixou radicalmente para 0,2%. Agora, dez anos depois, “anda pelos 0,4% e não mais do que isso”, refere aliviado.

Embora Joaquim Domingos não goste de falar de cura, por considerar “a possibilidade de haver uma recidiva” – o retorno da manifestação da doença –, o octogenário não tem qualquer sinal do carcinoma. Teme uma recaída, especialmente, por ser “muito mais difícil de tratar do que o cancro original”.

Do seu lado, o médico urologista refere que, sim, “podemos falar em cura”. E mesmo existindo uma recaída, há vários tipos: “Poderá ser apenas uma elevação do nível de PSA, da qual não se sabe a origem e terá de se recorrer a exames sofisticados; pode ainda tratar-se essa zona recidiva com cirurgia, radioterapia externa ou ablação por meios físicos. Se estiver numa forma mais disseminada, poderá ser tratada com fármacos sistémicos, mas aí, infelizmente, a expectativa de cura já não está em cima da mesa”.

O especialista do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra explicou à 4MEN que há grupos mais propensos para desenvolverem a doença. As principais causas pendem-se com uma possível relação direta com a genética familiar, com os hábitos de vida e alimentos consumidos ao longo da vida, com raça ou o valor do PSA. Contudo, há tratamentos e medidas preventivas. Carregue na fotogaleria para saber mais.

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