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Uma praga de hipopótamos está a destruir a Colômbia – e a culpa é de Escobar

Os animais trazidos de África há 30 anos pelo traficante procriaram, espalharam-se por Medellín e são um risco para o ecossistema do país. O problema continua sem solução.

Pablo Escobar deixou uma praga na Colômbia. Não, não estamos a falar de um império de droga, crime e destruição, mas de hipopótamos. O traficante, morto pela polícia há 25 anos e líder de uns dos maiores cartéis de droga do mundo, quis concretizar um sonho de infância: ter um jardim zoológico privado. Durante anos importou girafas, elefantes e outros animais exóticos de África para criar o seu próprio zoo. Entre as diversas espécies chegaram também os hipopótamos, que não existem, ou existiam, no país ou sequer no continente sul-americano. E isso tornou-se num problema.

Depois da morte de Escobar, a sua Hacienda Napoles em Medellín, que chegou a abrigar mais de 2.500 animais, foi saqueada e vários animais foram roubados, outros foram redistribuídos por jardins zoológicos e um casal de hipopótamos manteve-se no lago perto da quinta, agora transformada num parque temático. No entanto, o par decidiu ser feliz e começar a criar descendência. Acabaram por formar uma grande família.

Os animais que sobreviveram ao fim do império de Escobar reproduziram-se e transformaram-se num grupo de 50 que continua a crescer de forma imparável. E, pelo caminho, a tornar-se numa bomba-relógio: os animais destroem lavouras, derrubam cercas e atacam outros animais, enquanto assustam camponeses e pescadores. Tornaram-se no novo grande problema do estado colombiano. Alguns dos animais fugiram e instalaram-se a 150 quilómetros da antiga propriedade de Pablo, no principal rio do país, o Magdelena.

O fenómeno até já deu origem ao documentário “Os Hipopótamos de Pablo”, realizado pelo colombiano Antonio von Hildebrand. Durante a apresentação do filme no Festival Internacional de Cinema de Cartagena, o cineasta assinalou que a última coisa de que o país precisava era de “uma peste”, já que “andam a flutuar na água por todo o lado, circulam livremente e ninguém consegue controlá-los”.

O zoo de Escobar tinha zebras, rinocerontes e até elefantes

A ostentação do traficante colombiano acabou por ser um símbolo e um dos principais elementos a motivar o comércio de animais selvagens. Aliás, na América do Sul, os cartéis de drogas têm um grande envolvimento no comércio ilegal de animais, que são frequentemente utilizados para transportarem os seus produtos.

Fofinhos ou ferozes?

A 165 quilómetros de Medellín já se avistam as placas que avisam quem se aproxima: “Perigo, presença de hipopótamos”. No santuário de fauna da Hacienda Napoles há crocodilos, leões, suricatas, rinocerontes, elefantes, zebras, gazelas ou avestruzes. E, claro, um lago cheio de hipopótamos também, onde se destaca a Vanessa – a mascote do local, descrita como um animal terno que teve de ser criada e separada da sua manada. Os visitantes podem acariciá-la, dar-lhe banho e observá-la, mas com todas as devidas precauções já que “é um animal selvagem que obedece aos seus instintos”, descreve o parque.

Os hipopótamos são muitas vezes vistos como animais pacíficos e carinhosos, muitas vezes retratados em desenhos animados e histórias infantis. A verdade é que são dos mamíferos mais ferozes do planeta – e nem os crocodilos lhes sobrevivem.

Os hipopótamos tornaram-se numa espécie de mascote da terra

Segundo uma reportagem da norte-americana “Vox”,, muitas pessoas pedem ajuda quando se deparam com os animais, que muitas vezes passeiam pelas ruas, sem qualquer controlo. À revista, o biólogo do Ministério do Ambiente da Colômbia, David Echeverrí, revela que tudo se tornou num grave problema sem solução à vista, até porque ninguém sabe muito bem o que fazer. “A solução não está na Internet. Não posso pesquisar ‘Tenho um grupo de hipopótamos fora do seu habitat natural, o que faço?’”, explicou.

O local onde os animais andam descontroladamente recebeu o nome de “paraíso dos hipopótamos”. São herbívoros, não têm de se preocupar em competir com predadores pelo espaço, são sexualmente ativos e, dadas as características do clima tropical, têm comida disponível o ano todo, ao contrário do que acontece em África. Segundo a reportagem, a Colômbia é dos países com a maior biodiversidade do mundo, que os biólogos consideram agora ameaçada.

Os animais já são donos do espaço e até se passeiam pela cidade e entram cada vez mais em contacto com os locais. Nas lojas de lembranças das cidades próximas por onde vagueiam, há uma série de “recuerdos de la Hacienda Napoles” e estes mamíferos estão em destaque, há estatuetas com laços na cabeça e sorrisos. O grande problema é que continuam a reproduzir-se como coelhos e a comunidade não pára de crescer. São incontroláveis.

Um problema sem solução

A guerra foi declarada. Foram elevadas várias cercas, mas os animais saltam, derrubam-nas e fogem para junto da outra comunidade independente que se encontra nas imediações. Segunda intervenção: castrar os machos. Além de extremamente perigosa, esta solução é morosa e dispendiosa – cada castração custa quase cinco mil euros. Em desespero, a Colômbia viu-se forçada a pedir ajuda a um especialista africano em hipopótamos. A resposta não foi a esperada: “Têm aqui um grande problema. A solução é exterminá-los”.

Embora não parecesse uma boa fórmula, uma equipa de caçadores perseguiu-os e matou um dos hipopótamos. A foto do abate foi partilhada, com os homens a rodearem o cadáver do animal. Os colombianos não gostaram e muito menos os grupos de defesa dos direitos dos animais. O impacto negativo levou um tribunal colombiano a declarar ilegal o abate dos hipopótamos por se tratarem de “animais carismáticos”. O problema mantinha-se.

A foto da polémica

Uma parceria entre a National Geographic Society e Universidade Pedagógica e Tecnológica da Colômbia deu origem a um projeto que tinha como objetivo perceber o impacto destes animais na biodiversidade do país. Perceberam que os hipopótamos estão essencialmente a fertilizar os lagos que frequentam com suas fezes – o que geralmente é visto como negativo para o meio ambiente, porque pode levar à proliferações de algas tóxicas e até mesmo a morrerem.

Uma nova hipótese passou contactar diferentes organizações pelo mundo que aceitem ficar com eles, para que possam ser realojados em ambientes controlados. África não se mostrou recetiva e alega que os animais, agora colombianos, podem ter parasitas que contaminem os seus.

Enquanto não se sabe quem dará abrigo aos hipopótamos selvagens de Pablo Escobar, estes tornam-se bastante territoriais, continuam a viver no seu “paraíso” e a fazer o que fazem: a serem sexualmente ativos. Mais de duas décadas depois da sua morte, até Escobar estaria longe de imaginar que além de belíssimas séries e documentários, a sua vida luxuosa também deixaria um problema ambiental nas mãos dos governantes colombianos.

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