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Quem é o político punk que quer derrubar Trump

Beto O'Rourke é o novo fenómeno político dos EUA. Já o comparam a Obama e pode mesmo ser o grande candidato das presidenciais de 2020.

A batalha contra Trump é comparável a “todos os filmes épicos que alguma vez viram, de ‘Star Wars’ a ‘O Senhor dos Anéis’. Este é o momento em que ganhamos ou perdemos tudo”, explicou O’Rourke a um grupo de estudantes da Universidade de El Paso, antes da chegada do presidente norte-americano à cidade. O comício que juntava forças para a construção do muro na fronteira deparou-se com uma manifestação semelhante, em sentido contrário, organizada por Beto, naquele que seria o primeiro confronto entre os dois.

No perfil traçado pela “Vanity Fair”, ficamos a saber que Beto gosta de coisas épicas e míticas. Que o diga o filho, batizado com o nome de Ulysses apenas porque o texano não teve “coragem para lhe chamar Odysseus”. Épica será, também, a batalha que se avizinha. O jovem político de 46 anos anunciou a tão esperada candidatura às primárias do Partido Democrata, o primeiro passo para uma eventual corrida às presidenciais de 2022.

O texano é um caso sério de popularidade entre democratas e centristas – e uma bonita história de amor entre o candidato e os votantes mais jovens. Desde a derrota na corrida para o Senado, pintada como uma vitória pelos contornos inesperados, que se multiplicaram os perfis que o denotaram como a grande esperança democrata para bater Trump.

As comparações com Obama são inevitáveis e a recente entrevista em forma de bênção a Oprah Winfrey – que, vale a pena lembrar, foi uma das pessoas que ajudou a celebrizar o antigo presidente – confirmaram o que já era óbvio: O’Rourke é mesmo o novo fenómeno político norte-americano.

As diferenças não são assim tantas. Tal como Obama quando avançou como candidato às primárias, O’Rourke tem um currículo curto com três mandatos como congressista, uma enorme vaga de apoiantes jovens e uma plataforma moderada e longe das visões progressistas que têm tomado conta do espaço mediático no partido.

A mensagem é igualmente de esperança e de mudança: “Quero uma camapnha positiva que faça sobressair o melhor de cada um de nós, que procure unir um país dividido. Vimos o poder desta ideia no Texas, onde as pessoas não permitiram que as diferenças, sejam elas grandes ou pequenas, se colocassem entre eles e as dividissem”.

Um fenómeno democrata em terras republicanas

Com uns frescos 32 e ainda no início de uma fulgurosa carreira política, o jovem do Texas que concorria às eleições locais de 2005 na cidade texana de El Paso, foi forçado a debater-se com um dos mais velhos truques da política – um desafio que costuma ser um obstáculo na estrada dos políticos mais calejados.

O’Rourke, o punk rocker e skater, era pintado pelos seus adversários como um miúdo imaturo e criminoso. Os dados não eram totalmente falsos: Beto tinha e tem duas manchas no currículo. Em 1995 foi detido por saltar a cerca da universidade local e em 1998 por conduzir embriagado. Ambas as queixas foram arquivadas e não resultaram numa condenação.

Foi detido por saltar a cerca da universidade local e por conduzir embriagado. Ambas as queixas foram arquivadas

Em vez de retribuir as acusações, O’Rourke fez um mea culpa. O episódio repetir-se-ia em todas as corridas eleitorais às quais se candidatou. “Ambos os incidentes deveram-se a uma falta de discernimento da minha parte e não há nada que desculpe o meu comportamento. No entanto, desde então, tenho usado as oportunidades para servir a comunidade e o estado. E estou grato pela segunda oportunidade que tive. Acredito que todos as merecemos”, repetiu em 2017.

Todas as pedras atiradas a O’Rourke pelos adversários têm feito ricochete. É exatamente a irreverência, o ar despreocupado e casual do político de 46 anos que fizeram dele um caso de sucesso num estado ultra-conservador e republicano como o Texas.

O fenómeno atingiu proporções de tal forma inéditas que por pouco não se assistiu a um evento histórico nas intercalares de 2018: uma vitória democrata sobre Ted Cruz na corrida para o Senado.

Apesar da derrota – perdeu com uma margem mínima de 2,6% –, os EUA anotaram imediatamente o nome do antigo congressista nos blocos de notas. Afinal, O’Rourke conseguiu um financiamento de 70 milhões de euros, um valor recorde e nunca antes visto numa corrida ao Senado. Os críticos mostram-se reticentes quanto a esta capacidade de financiamento e apontam o dedo ao sogro. Beto está casado desde 2005 com Amy Hoover Sanders, filha do multimilionário William D. Sanders, a quem muitos chamam o Warren Buffet do mundo imobiliário.

Mais do que perder por pouco, da corrida saiu algo mais forte do que uma mera vitória moral. O número de votantes disparou e todos repararam na crescente ida às urnas de jovens e eleitores que o faziam pela primeira vez. Sentia-se, referiram muitos comentadores, um ambiente de esperança só replicado pela campanha de Obama. O feito colocou-o na lista da frente de potenciais candidatos às primárias democratas, sempre com olhos postos nas presidenciais de 2022.

O punk rocker de boas famílias

Aos 15 anos, O’Rourke deixou El Paso, a família e os pais rigorosos para se matricular, em regime de internato, na Woodberry Forest School, um colégio só para rapazes onde se formaram bem-sucedidos políticos, músicos, juízes e empresários bilionários. Era fácil de perceber porquê.

“O meu pai era muito crítico e tinha altas expectativas”, contou à “Vanity Fair”. Quando um dia reprovou a matemática, o pai deixou de lhe falar. “Fez questão de me mostrar que eu o tinha envergonhado. Essa foi a coisa mais profundamente dolorosa que vivi até essa altura da minha vida”.

Para “se integrar melhor” na nova escola, o jovem deixou cair o diminutivo de ares latinos dado pelos pais e regressou ao nome de registo, Robert. “Não queria ser o rapaz com o nome estranho que as pessoas não sabiam como pronunciar”, contou ao “The Dallas Morning News”. Isso não o livrou de ser um dos “miúdos esquisitos” que ficavam sentados numa mesa à parte.

Pat O’Rourke, o pai, não era uma figura desconhecida. Em 2001, o gabinete de Ronald Reagan, então presidente norte-americano, recebeu uma fatura de 8,8 milhões de dólares em nome da cidade de El Paso. No final da nota estava o nome do juíz e então chefe do executivo da cidade, que exigia a verba para evitar a bancarrota devido às gigantescas despesas hospitalares, acumuladas pelos tratamentos dos imigrantes ilegais chegados do outro lado da fronteira.

Crítico do impacto da imigração, protegeu sempre a causa dos desesperados. Chegou mesmo a dizer que numa situação semelhante à dos mexicanos, faria exatamente o mesmo. “Pegaria no meu filho, atravessaria o rio e salvar-lhe-ia a vida. Faria exatamente o mesmo que estas pessoas estão a fazer.” Muitos dos comentadores políticos assinalam as parecenças de estilo entre Beto e Pat, que morreu em 2001, atropelado quando andava na sua bicicleta reclinada.

Regressado do colégio, o jovem tornou-se um rebelde, talvez para continuar a fugir à influência do pai. Inspirado pelos The Clash, juntou-se à onda punk, agarrou no baixo e em dois amigos e fundou os Foss. Poderia ter sido apenas mais uma qualquer banda de garagem, não tivesse passado pela composição do grupo um tal de Cedric Bixler-Zavala, nome de referência na cena e futuro membro de bandas de culto como At the Drive-In e The Mars Volta.

Beto, que também dava uns toques na bateria, chegou a abrir concertos de Feist e ainda teve tempo para participar noutra banda, os Swedes, que lançaram um álbum em 1995. O seu futuro não estava, no entanto, na música – o que não significa que tenha deixado a rebeldia para trás. É, aliás, normal vê-lo de skate nos pés algures por El Paso.

Mesmo nos tempos como congressista e numa altura em que começava a montar a campanha para a corrida ao Senado – um ano antes sequer de Cruz anunciar que era candidato –, fê-lo da forma mais humilde possível: apenas com dois assistentes, ambos seus amigos, e uma carrinha alugada. A cada comício, surgiam dezenas, milhares de novos apoiantes. Meses depois, tinha 25 mil voluntários e uma das maiores campanhas para o Senado que os EUA haviam visto.

Menos radical do que nos seus tempos de universidade e de digressões punk pelo país, hoje Beto é pai de Ulysses, Molly e Henri, três crianças com idades entre os 10 e os 13. A mulher, Amy, nove anos mais nova, é formada em psicologia. E sabemos tudo isto e muito mais porque O’Rourke é um viciado em redes sociais.

À imagem da nova vaga de políticos norte-americanos – com a novata congressita de Nova Iorque Alexandria Ocasio-Cortez à cabeça –, o texano também é perito no uso de redes como o Instagram para espalhar a imagem. Não é incomum ver stories do político no carro a comer batatas frita, a preparar o jantar para a família ou numa ida ao dentista.

Uma nova esperança

A maioria dos democratas espera que Beto seja o candidato anti-Trump que finalmente elimine o vilão da política norte-americana de uma vez por todas. O texano tem outra visão e apoia-se numa frase de um dos seus mais temíveis opositores nas primárias democratas.

“[Bernie Sanders] disse que não basta lembrar a América do quão mau é Donald Trump, isso não vai funcionar. É preciso dar às pessoas algo em que acreditem e não apenas algo contra o que lutar”, revelou.

Embora não coloque em Trump o alvo de toda a sua ira, o choque de ideais, de ideias e de propostas concretas não podia ser mais oposto. E o confronto torna-se inevitável.

Um dos momentos que ajudaram Beto a incendiar a sua popularidade pelo país foi a sua intervenção a favor dos jogadores de futebol-americano que se ajoelharam durante o hino, num protesto contra a brutalidade policial. Tida como desrespeitosa para com os EUA e os seus veteranos, O’Rourke deixou uma mensagem presidencial que recordou alguns dos momentos mais marcantes da luta pelos direitos civis no país. Milhões partilharam o momento que se tornou viral.

O político de El Paso está longe da linha mais progressista do partido e de nomes como Sanders. Destaca-se, sobretudo, na forma como vê temas como a legalização da marijuana, da qual é a favor, e a restrição do uso e porte de armas, através da proibição de comercialização de espingardas de assalto semi-automáticas.

Noutros temas fraturantes como a saúde, embora se confesse um adepto de um serviço de saúde universal que abranja todos os americanos, continua sem apoiar um plano concreto – e a rejeitar as soluções existentes. A imagem de democrata contido contrasta em diversos temas como o do aborto, onde é um fervoroso defensor do direito de escolha das mulheres. Também na plataforma ambiental é um progressista. “Impedir que a temperatura do planeta aumente meio grau, para mim, é o mais importante para a humanidade”.

“Impedir que a temperatura do planeta aumente meio grau, para mim, é o mais importante para a humanidade”

Muitos colocam em causa a sua capacidade de ser bem-sucedido numa era onde candidatos de minorias e sobretudo mulheres têm sobressaído. A crítica esbate-se perante o cenário das primárias democratas, onde faz parte da lista dos favoritos ao lado de duas velhas raposas, Sanders de 77 anos e Biden de 76, homens brancos e porta-estandartes da velha guarda política.

Com uma luta titânica pela frente, mesmo antes de poder disputar o lugar na Sala Oval, O’Rourke sabe que não quer entrar em disputas pessoais. E embora equipare uma luta com Trump a uma batalha entre os sempre heróicos jedi e as forças imperiais, mantém o espírito humilde.

“Não fico entusiasmado por estar contra alguém. Entusiasma-me estar a favor de algo. É isso que me move. É importante derrotar Trump, mas não é isso que me entusiasma. Quero colocar os EUA a liderar o mundo e certificar-me que as gerações que se seguem podem viver aqui”.

Queira ou não entrar num frente a frente com Trump, o atual presidente desferiu o primeiro golpe no comício de fevereiro, na cidade-natal de Beto. Perante o comício organizado pelo político que pretendia rivalizar com o do presidente republicano, Trump contra-atacou num gesto preventivo e calculado, numa altura em que já circulavam os rumores de uma candidatura. “Ei, é suposto ganhares antes de concorreres”. Um mês depois, Beto aceitou o desafio e lançou a corrida. A cena final desta saga épica fica guardada para 2022.

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