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André Rieu: “Os fãs precisam de duas semanas para se acalmarem depois de um concerto”

Em entrevista à 4MEN, o holandês diz que o género não é só para as elites. E acredita que se Mozart fosse vivo, todas as raparigas quereriam tirar selfies com ele.

O fenómeno é real e a vinda de André Rieu a Portugal levou cerca de 100 mil pessoas a uma procura desenfreada por um bilhete. Começou com uma data e já vai em nove concertos agendados para Portugal só em 2019. O primeiro acontece já esta quarta-feira, 13 de março, na Altice Arena em Lisboa. Entre os fãs estão homens e mulheres, jovens e adultos, que fizeram ressurgir uma paixão inesperada pela música clássica – e a 4MEN foi à procura de uma explicação para este fenómeno.

Os fãs estão ansiosos por aquilo a que chamam o realizar de um sonho, enquanto o músico se confessa “feliz e orgulhoso” pelo número de concertos já confirmados. Ao todo, esta produção megalómana conta com cerca de 60 músicos em palco, para um concerto que dura duas horas e meia com um pequeno intervalo. Para transportar todos os instrumentos e adereços necessários a este grande espetáculo são necessários cerca de dez camiões, à semelhança de alguns concertos de pop ou rock, e mais de 120 pessoas no staff para garantir que nada falha quando André Rieu entrar em palco.

Em entrevista à 4MEN, o músico holandês de 69 anos ajuda a desvendar qual é o segredo para tornar a música clássica cool outra vez.

Começou com um concerto em Lisboa. Já vai em oito concertos só na capital. Com tantos fãs por todo o País, está previsto mais algum, desta vez noutra cidade?
Sim, não é fantástico ter já oito concertos na capital de Portugal? Estou muito feliz e orgulhoso, sinto-me muito honrado por ter tanto fãs no vosso País. Onde atuamos depende de vários aspetos, como por exemplo o tamanho do palco, a tourné e o itinerário planeado. De momento não é possível acrescentar outra cidade, infelizmente. Mas adoraria conhecer mais Portugal e estamos sempre a verificar novas possibilidades.

Como explica tanto sucesso e tantos fãs tocando música clássica?
É a forma como apresentamos a música e a escolha do repertório. Para mim, a música não tem fronteiras. Os meus programas são sempre uma mistura de bonitas valsas, música de filmes, ópera e opereta, canções pop ou música tradicional – interpretada, claro, pela minha orquestra e por mim. Se uma melodia toca o meu coração, eu sei que vai tocar os vossos, quer tenha sido escrita por Giuseppe Verdi ou Michael Jackson. Além disso, temos muita diversão em palco e o meu público vai para casa feliz e entusiasmado. Recebo muitas cartas de fãs a contarem-me que precisam de duas semanas para se acalmarem depois de um dos meus concertos. Fico muito comovido com isso.

“A música clássica é para ser apreciada por todos, não apenas pela elite”

A sua base de fãs tem também muitos jovens na casa dos vinte anos e que, normalmente, ouviriam rap ou rock. Como é que os conquista?
Tento tornar a música clássica acessível a toda a todos. Os meus concertos são uma festa para todos os sentidos, não só para os ouvidos mas também para os olhos. As melodias são bem conhecidas por todas as gerações e são tocadas com toda a emoção possível. Tudo o que vêem é real, nada no palco é falso. Tocamos o “Bolero” de Ravel acompanhado por um espetáculo de lasers e tocamos melodias adoradas que não são só clássicas, como “Hallelujah” de Leonard Cohen ou “You Raise Me Up” e mais. Muitas famílias vêm aos nossos concertos e divertem-se juntas. Estou convencido de que a música clássica é para ser apreciada por todos, não apenas pela elite como alguns pensam.

O género é visto como erudito e muito restrito a uma elite. Como é que o tornou num fenómeno de massas?
Tocar com todo o entusiasmo e tentar livrarmo-nos da ideia de que a música clássica é apenas para uns quantos felizardos ou para a elite rica. Pense num homem como Mozart, ele era realmente uma estrela pop no seu tempo. Se a tecnologia lhe tivesse permitido, as raparigas teriam tirado selfies com ele e decorado as paredes dos quartos com os seus posters. A música clássica, noutras palavras, era uma forma de música pop. A música clássica está cada vez mais popular na sociedade moderna. Tudo se resume ao entusiasmo e diversão. Durante os meus concertos, toda e qualquer emoção pode ser vista e eu permito-as todas: quando estiver feliz, ria; quando estiver triste, não tenha medo de mostrar as suas lágrimas. E quando tiver vontade de dançar, salte da cadeira e dance.

“Se a tecnologia permitisse, as raparigas tirariam selfies com Mozart”

Popularizando a música clássica desta forma, que reações tem tido ao longo da carreira por parte dos artistas que defendem o lado mais sério deste género musical?
Algumas pessoas continuam a pensar que a música clássica deve ser apreciada ficando totalmente imóvel e vestindo-se totalmente de preto. Mas aqui e ali também um caloroso feedback de vários colegas clássicos: Cecilia Bartoli, soprano de renome mundial, fez-me um enorme elogio depois de ir a um concerto dos meus. Maxim Vengerov, o famoso violinista, também ficou muito entusiasmado e disse-me que se divertiu muito! Por outro lado, Michael Jackson ouviu-me tocar quando a minha carreira internacional estava ainda a começar. Ele levantou os polegares e aconselhou-me a continuar com este maravilhoso trabalho – nunca vou esquecer isso, foi genuinamente gratificante!

Os concertos de música clássica são habitualmente sérios e pesados. Nos seus há pessoas a dançar e a beber como se estivessem num festival de verão. Porquê?
Há uma ocasião especial onde essa atmosfera se destaca muito bem: a nossa série de concertos de verão ao ar livre na minha cidade natal de Maastricht. É uma tradição maravilhosa, no próximo mês de julho será o 15.º ano que a minha orquestra e eu tocaremos para mais de 100 mil pessoas. Vêm de todas as partes do planeta, no ano passado contámos cerca de 90 nacionalidades na praça Vrijthof, rodeadas por pessoas a jantar em restaurantes e cafés à volta da praça. Espero sinceramente continuar esta tradição por muitos anos. E como estou a planear chegar aos 120, tudo vai acabar bem.

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