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Kepa, o miúdo que Zidane não quis – e que agora é o mais caro de sempre

Antes de ser o mais caro de sempre, Kepa já era campeão e mestre na arte de pôr pássaros a cantar. Agora, o miúdo que roubou o lugar a Iraizoz está no topo do mundo.

Ao fim de 15 anos de luta nos escalões de formação do mais emblemático clube do País Basco e de dois empréstimos, Kepa conseguia o improvável. Subiu ao relvado, calçou as luvas e colocou-se no lugar onde durante 10 anos um homem foi insubstituível. Gorka Iraizoz cedeu finalmente o posto ao miúdo imberbe. À quarta jornada da liga espanhola fazia a estreia no mítico San Mamés, em Bilbao. Aos dois minutos, sem tocar na bola, já tinha sofrido um golo.

“Estive tanto tempo à espera de uma oportunidade e antes sequer de tocar pela primeira vez na bola tenho que ir buscá-la às redes”, confessou em entrevista ao jornal desportivo “Marca”.

Os dois anos de experiência por clubes modestos da segunda divisão espanhola – o Valladolid e o Ponferradina – ajudaram-no a habituar-se às dificuldades. Mais difícil só mesmo a confusão em que se veria envolvido quase um ano e meio depois, já com o estatuto de guardião titular e indiscutível do Bilbao.

O contrato de Kepa terminava em junho de 2018 e a cláusula de rescisão de 20 milhões começava a parecer tentadora para os grandes europeus. Foi precisamente o maior que decidiu avançar. Os dirigentes do Real Madrid, frustrados com o falhanço da contratação de De Gea, começaram a sondar empresário e treinador. Os jornais anunciavam o acordo como um dado mais do que certo: o Athletic receberia o valor da cláusula e Kepa seria o novo rival de Keylor Navas.

O jovem de 23 anos chegou mesmo a fazer e a passar nos exames médicos. A proposta, contudo, parecia nunca mais chegar. Perante a demora, Zidane foi questionado – e o negócio começou a ruir. O treinador francês fez frente à direção e travou a contratação, justificando que a entrada de um guarda-redes a meio da temporada e a eventual troca com Kiko Casilla poderia arruinar a harmonia que se vivia dentro do balneário.

Kepa podia esperar. Tornar-se-ia um jogador livre dentro de poucos meses e poderia assinar por qualquer clube. O cenário ficou mais negro quando os responsáveis do Bilbao perceberam o que poderia acontecer e foi necessária uma intervenção. Ameaçaram Kepa que, caso não renovasse, ficaria na bancada até ao final da temporada. Em ano de Mundial e com a convocatória à vista, o jovem de 23 anos não podia arriscar e cedeu. Em janeiro anunciava-se uma renovação que seria história: ficava até 2025 e aumentava a cláusula para os 80 milhões de euros.

Seis meses depois, o Chelsea avança, paga a cláusula e Kepa passa a ser o guarda-redes mais caro de sempre da história do futebol. Um erro do qual Zidane nunca mais se esquecerá e um negócio que sorriu aos dirigentes do Bilbao, mesmo que isso signifique a perda do craque da equipa.

Ágil, frio e invulgarmente decidido para um guardião de 23 anos, essas não são as únicas características que fazem de Kepa um rapaz invulgar. Antes de se sagrar campeão europeu de Sub19 na baliza da Espanha em 2012 – onde brilhou ao defender dois penáltis na meia-final contra a França –, ele também já era campeão noutras modalidades: traz no currículo dois primeiros lugares no Campeonato de Pássaros Cantores da Biscaia.

“Desde que eu era pequeno que tínhamos pássaros em casa. Não perdia nenhum concurso, mas tornou-se mais difícil acompanhá-los porque tinha jogos aos fins de semana. É um hobby que não quero perder. Cada vez que vou a casa aquilo está cheio de pássaros. É muito saudável”, revelou ao jornal “Marca”.

Para Kepa, a casa é Ondárroa, uma pequena vila piscatória na costa basca de onde partia várias vezes por semana para percorrer os pouco mais de 60 quilómetros até Bilbao, só para treinar. Quando não estava a absorver os ensinamentos na academia do Athletic, era ele quem se dedicava a treinar os seus pintassilgos Oker, Rocky e Raikkonen. Era inevitável: o balneário começou a colar-lhe a alcunha de pintassilgo.

Peio Arrizabalaga e o filho Kepa eram os mestres da arte na região. “Ele era ultracompetitivo desde muito pequeno. Controlava tudo: os tempos, o melhor momento para lançar o pássaro, os cantos que ele fazia. Tudo”, recorda ao “El Mundo” Juan Goicoechea, amigo da família e delegado da Federação. “O Kepa é melhor silvestrista do que guarda-redes”, frisou na altura, sem saber que seis meses depois, Kepa poderia não ser tão hábil com as bolas como com pintassilgos, mas seria certamente o mais caro silvestrista do mundo.

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