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O desastre milionário do PSG: 1.12 mil milhões e sete anos de fracassos

Eliminados pelo Manchester United, desde que são um clube milionário nunca foram além dos quartos de final da Champions. E desde 2016 que caem sempre nos oitavos.

Mbappé não tirou os olhos do relvado. Neymar ficou de boca aberta na bancada. Os fanáticos do Manchester United esbraçejavam de alegria. O resto da Europa do futebol não estranhava. Afinal, a eliminação do Paris Saint-Germain é já uma tradição.

Desta vez, os contornos foram ainda mais dramáticos. Depois de uma vitória em Old Trafford por 2-0, tudo parecia encaminhado. Com a segunda mão a ser jogada em casa e com um United desfalcado – foram quase 10 as ausências no plantel, por suspensão ou lesão, sendo que Pogba também não foi a jogo –, poucos previam uma surpresa. Só que um erro deu o golo a Lukaku no primeiro minuto de jogo. Outro erro de Buffon permitiu o segundo golo dos ingleses e, já nos descontos, um penálti revisto pelo VAR pôs nos pés de Rashford o golo que virava a eliminatória.

Quando o defesa belga Thomas Meunier anteviu o último encontro decisivo da fase de grupos, frente ao Liverpool, explicou que “a eliminação da Liga dos Campeões seria um desastre”. E assim foi. Os sucessivos falhanços de uma equipa construída para ganhar têm colocado em causa o investimento milionário feito no PSG.

“Estou muito desapontado com o resultado e com o jogo. Não percebo como é que perdemos. (…) Demos-lhes tudo para ganharem. Tornou-se fácil para eles. Não percebo”, revelou um desapontado Al-Khelaifi, o dono do clube, depois da partida.

A Oryx Qatar Sports Investments, um fundo de investimento fundado pelos herdeiros reais do Qatar em 2005, tomou conta do PSG em 2011 e o empresário Nasser Al-Khelaifi tornou-se no líder do maior clube parisiense. Com milhões para investir na equipa, o objetivo não se prendia apenas com o domínio do campeonato francês. Este era um projeto para dominar o futebol europeu.

Logo no primeiro ano, os cheques começaram a ser assinados e os craques eventualmente aterraram em Paris. Foram quase 96 milhões de euros que foram gastos em nomes como Matuidi, Kevin Gameiro, Javier Pastore e Thiago Motta.

A estreia do clube no estatuto de milionário não correu bem. Na liga francesa deixou-se surpreender por um improvável Montpellier, que terminou o campeonato no primeiro lugar com três pontos de vantagem. Caiu nos quartos de final da Taça, eliminado pelo Lyon por 3-1, e nos oitavos da Taça da Liga com uma derrota por 3-2 frente ao Dijon. Falhado o apuramento para a Liga dos Campeões na época anterior, a Liga Europa podia ser a competição redentora para os franceses. Não foi isso que aconteceu. O PSG caiu logo na fase de grupos, atrás do Athletic de Bilbao e do Red Bull Salzburgo. Títulos: zero.

De volta à mesa de operações, o verão de 2012 trouxe ainda mais investimento. Foram gastos 110.8 milhões de euros no reforço da equipa, com a chegada estrondosa de Zlatan Ibrahimovic, acompanhado do central brasileiro Thiago Silva, Ezequiel Lavezzi, Marco Verratti, Lucas Moura e van der Wiel.

O desastre milionário do PSG: 1.12 mil milhões e sete anos de fracassos
Ibrahimovic teve direito a apresentação na Torre Eiffel

A temporada começou de forma promissora e o percurso no campeonato foi mais um passeio. Os parisienses ganharam o título de campeões franceses e deixaram a concorrência bem longe: o Marselha, em segundo, ficou a 12 pontos; o terceiro, Lyon, a 16. Nas taças, a conversa foi outra. Caíram nos quartos de final de ambas, eliminados pelo Évian e pelo Saint-Étienne. Nada que preocupasse muito os dirigentes. Afinal, este ano haviam sido apurados para a Champions, o objetivo de ouro.

Saíram em primeiro do grupo que viu o FC Porto classificar-se em segundo lugar – e ainda foram a tempo de sofrer uma derrota no Dragão. Depois de eliminarem o Valência nos oitavos, o sorteio dos quartos foi ingrato e colocou os no rumo do Barcelona. Dois empates e a regra dos golos foram deram a passagem aos catalães – e seguia-se mais um ano sem taça na mão.

O que é que um milionário faz quando encontra um problema? Cobre-o com dinheiro na esperança que ele desapareça. Foi o que Al-Khelaifi fez. Durante a pré-temporada, o PSG investiu mais 109 milhões, quase todos para trazer dois craques: Cavani e Marquinhos. Ao banco chegou o técnico francês Laurent Blanc, que substituiu Carlo Ancelotti.

A época 2013/2014 trouxe mais um passeio no campeonato, ganho com nove pontos de vantagem à frente do segundo classificado Mónaco. Desta vez, os parisienses juntaram-lhe a Taça de França, vencendo o Lyon na final. Na Taça da Liga ficaram-se pelos dezasseis-avos de final. E na Champions?

No grupo voltaram a encontrar uma equipa portuguesa, desta vez o Benfica, que apesar de uma vitória na Luz, não foi além de um terceiro lugar. Os milionários franceses passaram em primeiro e pareciam lançados, depois de arrasarem os alemães do Leverkusen nos oitavos, com um resultado agregado de 6-1. Com o sorteio a colocá-los frente ao Chelsea nos quartos de final, o PSG voltou a falhar por pouco. Depois de uma vitória por 3-1 em casa, não evitaram a derrota em Londres, com um golo fatal de Demba Ba a voltar a fazer os franceses caírem na mesma fase da época anterior.

Os mais de 300 milhões gastos em três anos pareceram refrear os ânimos dos investidores do Qatar. No verão seguinte, saíram das contas apenas 50 milhões, com Laurent Blanc a resgatar David Luiz ao Chelsea.

Curiosamente, o ano de menor investimento revelou-se um dos mais bem-sucedidos. Campeões franceses, vencedores das taças e novamente a Champions, sempre a Champions. A passagem exemplar nos grupos ao lado de Barcelona foi ofuscada por um reencontro logo nos oitavos. Calhava novamente o Chelsea, o carrasco da época anterior. Desta vez, os franceses repetiram os resultados, empataram as duas mãos, mas seguiram em frente graças aos golos fora, com um emocionante prolongamento em Stamford Bridge.

Em Paris respirava-se confiança. Acreditava-se que depois de tantos milhões, seria desta que o clube faria história na maior competição europeia. O sorteio tinha outras ideias. Trouxe mais um reencontro com o Barcelona, com quem se tinham batido na fase de grupos – deu uma vitória para cada lado, por 3-2 em Paris, e por 3-1 na Catalunha. No desafio dos quartos de final, houve pouca história para contar. Os espanhóis decidiram quase tudo com um 3-1 em Paris e confirmaram mais uma tentativa falhada dos franceses com um 2-0 em casa.

Para grandes males, muitos milhões. As contas voltaram a abrir-se e Angel Di Maria foi a estrela que chegou a Paris no verão, acompanhado de nomes menos sonantes como Kurzawa e Serge Aurier. Conta final: 114 milhões.

Por esta altura, o palmarés do PSG parecia impresso em série. Saía mais um título nacional, as taças voltavam a ir para o museu parisiense e na Champions League repetia-se a desilusão. Depois de mais uma fase de grupos exemplar ao lado de Real Madrid, os franceses passaram em segundo de forma destacada, para reencontrarem e eliminarem o Chelsea nos oitavos, graças a duas vitórias por 2-1. Chegava, então, o pesadelo dos quartos. Foi outro clube novo rico que atirou os franceses para uma nova depressão. O Manchester City empatou a dois em Paris e em Inglaterra decidiu tudo com um golo solitário de Kevin De Bruyne.

Dominar França não chegava e a prova das ambições dos investidores do Qatar chegou na forma do despedimento de Laurent Blanc. Para o seu lugar chegou o espanhol Unai Emery, vindo do Sevilha. E todos os pedidos do técnico foram aceites: veio Julian Draxler, Lo Celso, Jesé e Krychowiak, nomes discretos mas que obrigaram a um investimento de 136 milhões.

Quando deram França por garantida, foram surpreendidos. O Mónaco de Leonardo Jardim agigantou-se e, enquanto os parisienses espreitavam a Champions, roubou o título de campeão com uma vantagem de oito pontos. A única forma de atenuar a derrota caseira passava por ganhar, finalmente, a Liga dos Campeões. Chegados aos oitavos, enfrentaram mais um colosso. O Barcelona que já havia eliminados os franceses era uma prova definitiva para testar as ambições do PSG. E que melhor forma de responder a este teste com uma goleada por 4-0 frente à equipa de Messi?

A Europa parecia estar finalmente ao alcance e não havia quem olhasse para os craques de Paris e não lhes desse uma real chance de vencer o título. Bem, pelo menos até ao jogo da segunda mão. Os catalães desenharam uma remontada histórica e venceram por 6-1, num jogo onde muitas críticas foram feitas ao árbitro, mas que acabaram no destino de sempre: a eliminação do PSG.

Mais um verão, mais uma sessão de compras. Como num jogo onde se usa um código secreto para juntar mais dinheiro à conta, os investidores bateram todos os recordes de investimento. Neymar foi roubado ao Barcelona na então transferência mais cara de sempre que totalizou 222 milhões. Mbappé, a estrela emergente do Mónaco chegou emprestada com uma cláusula de compra obrigatória de 180 milhões a pagar no futuro. Total do verão: 238 milhões, mais o valor de Mbappé a descontar no ano seguinte.

O regresso previsível ao domínio francês concretizou-se. O PSG ganhou tudo o que havia para ganhar. Na Champions, para desgraça dos parisienses, também nada mudou. A brilhante fase de grupos com passagem em primeiro lugar, à frente do Bayern Munique, levou-os a um confronto com o Real Madrid logo nos oitavos. O futuro campeão europeu arrumou os franceses com duas derrotas e um agregado de 5-2 nas duas mãos.

Em época de liquidar o valor de Mbappé, o Paris Saint-Germain ainda se deu ao luxo de gastar mais 80 milhões em Juan Bernat, Thilo Kehrer e Leandro Paredes, aos que se juntaram Buffon e Choupo-Moting. Emery deu lugar ao alemão Thomas Tuchel.

O título frances, pelo menos esse, não vai fugir: lideram a tabela com 17 pontos de vantagem sobre o segundo classificado, o Lille. Na Taça de França estão apurados para as meias-finais, apesar de eliminados pelo Guingamp nos quartos da Taça da Liga. Na Champions, já sabemos o desfecho. A época está assim praticamente fechada para o Paris Saint-Germain, que no início de março já pode começar a fazer contas à próxima temporada.

Em sete temporadas foram investidos aproximadamente 1.12 mil milhões de euros, um valor estonteante para um rendimento discutível. Em sete temporadas, venceram cinco campeonatos, quatro Taça de França e cinco Taças da Liga. Um investimento de 80 milhões por cada título. E se a grande ambição dos investidores e do clube foi sempre o triunfo europeu, isso esteve quase sempre muito longe.

Nas seis temporadas em que competiram na Liga dos Campeões, os franceses nunca passaram dos quartos de final, fase atingida nos primeiros cinco anos depois da venda ao fundo de investimento. É que desde 2016 que o PSG não ultrapassa sequer os oitavos de final, fase onde foi eliminado nas últimas três temporadas.

Infelizmente para os franceses, o raide milionário em Paris vem dar razão a Johan Cruyff, que um dia disse, embora noutro contexto, que nunca viu “um saco de dinheiro marcar um golo”.

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