Desporto

Emanuel Medeiros, o português que luta por um futebol europeu mais democrático

O futebol europeu está mais desequilibrado do que nunca. Os ricos dominam, os remediados lutam como podem e o espetáculo é que sofre – mas este português tem a solução.

A derrota humilhante do FC Porto na última jornada da Liga dos Campeões não foi apenas um mau episódio na campanha europeia portuguesa. A goleada por 5-0 sofrida no Dragão não foi a única na primeira semana da primeira fase a eliminar da competição. Um dia antes, também o Basileia havia sido despachado pelo Manchester City por 4-0. Olhando ainda mais longe, para anos recentes, o desequilíbrio entre a elite dos clubes mais ricos e todos os outros parece ser cada vez mais óbvio.

É certo que esta é uma regra intemporal: quem tem mais dinheiro para comprar os melhores jogadores está, necessariamente, mais perto do sucesso, mas nunca a diferença entre equipas foi tão acentuada como agora.

A maioria dos principais campeonatos estão praticamente decididos e não será certamente coincidência que os prováveis futuros campeões nacionais tenham sido os clubes que mais dinheiro investiram no mercado. O Manchester City, que tem o plantel mais caro da história do futebol – os seus jogadores custaram 878 milhões de euros –, foi a segunda equipa mais gastadora do mundo esta temporada com 300 milhões de euros investidos e, a 11 jornadas do fim, lidera a Premier League com 16 pontos de avanço sobre o Manchester United.

Em França, o PSG, equipa que mais investiu esta época no futebol mundial – só em Neymar foram 222 milhões de euros e em Mbappé 180 milhões – tem 12 pontos de avanço sobre o AS Mónaco, a 12 jornadas do fim. E na Alemanha, o pentacampeão Bayern Munique já pode festejar o hexa,graças aos 19 pontos de avanço sobre o Borussia Dortmund, a 11 jornadas do fim. Nos cinco principais campeonatos europeus, só existe equilíbrio na Série A, com o Nápoles a liderar com um ponto de avanço sobre a Juventus.

Os grandes campeonatos europeus estão praticamente decididos – e os campeões são os clubes que gastaram mais dinheiro

“Este é um problema que não é novo e que já vem desde a década de 90 do século passado, quando deixou de ser possível uma visão monetária igualitária entre os clubes, a partir do momento em que houve alterações no acesso à Liga dos Campeões. Devido à pressão do G14, que reivindicava acesso mais privilegiado dos seus membros à maior competição de clubes da Europa, deixaram de ser apenas os campeões nacionais a entrar na competição (…) [Essa alteração] reforçou a assimetria no acesso às fontes de receita, com o sucesso em campo a passar a ser determinado pelo músculo financeiro, que permitia chegar aos melhores jogadores”.

Na procura de possíveis explicações para este desequilíbrio tão esmagador, poucas pessoas estarão tão habilitadas para discutir o fenómeno como Emanuel Medeiros, português que esteve nove anos na direção executiva da Associação das Ligas Europeias de Futebol Profissional, de onde saiu em junho de 2014 para a comandar as operações do Centro Internacional para a Segurança no Desporto na Europa e América Latina. Mais recentemente, foi eleito CEO da SIGA (Sport Integrity Global Alliance).

“Enquanto dirigente de primeira linha em instituições do futebol internacional fui chamando a atenção para estas desigualdades, mas mais recentemente, aproveitando um vazio na liderança da UEFA, as quatro principais Ligas do futebol europeu [Inglaterra, Espanha, Alemanha e Itália] voltaram a forçar alterações no formato da Liga dos Campeões e penso que o acesso à competição nunca mais deixará de ser privilegiado para os clubes destes quatro países”. Emanuel Medeiros faz um parêntesis para se referir à presença de Itália neste grupo de quatro nações, já que “desportivamente, nada justificaria a sua presença, mas a verdade é que tem dirigentes argutos e influentes”.

Outros artigos de Desporto

Últimos artigos da 4MEN