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Modric: como o miúdo refugiado venceu a guerra e conquistou o mundo

Aprendeu a jogar futebol entre escombros num país destruído pela guerra. Ultrapassou todas as contrariedades e conduziu uma geração marcada pelo conflito ao estatuto de heróis. Hoje é o melhor do mundo.

Apenas com seis anos, Luka viveu um pesadelo que poucas estrelas do futebol tiveram que suportar. Aos seis anos, foi forçado a abandonar a casa, os amigos e a pequena vila onde croata onde cresceu. Deixou para trás os habituais passeios com o gado pelas montanhas e fugiu de mão dada com a família. Nos montes ficou o avô, barbaramente assassinado pelas tropas sérvias que irromperam pela Croácia, numa tentativa de impedir a independência e o desmembramento da Jugoslávia.

“Estávamos sempre com medo, é o que mais recordo. Centenas de granadas disparadas das montanhas à volta caíram no campo nesses anos – e estávamos sempre a correr para chegar ao abrigo. O futebol era o nosso escape da realidade”, recorda Tomislav Basic, primeiro treinador de Modric e uma espécie de pai da sua carreira futebolística. Enquanto todos lutavam para sobreviver, o miúdo franzino lutava igualmente para um dia brilhar no relvado como Zvonimir Boban, o seu ídolo.

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Quase três décadas depois, o miúdo da vila de Modrici conquista o mundo. Esta segunda-feira, 3 de dezembro, subiu ao palco para receber o prémio da “France Football” para o melhor jogador do mundo. Segurou na icónica Bola de Ouro graças aos 753 pontos, um recorde absoluto. É o primeiro futebolista a conquistar no mesmo ano os títulos de melhor jogador do ano da FIFA e da UEFA e a Bola de Ouro Isto num ano em que roubou o primeiro lugar a Cristiano Ronaldo e a Messi, acabando com a hegemonia que durava há uma década.

A conquista da Liga dos Campeões e o segundo lugar no Mundial da Rússia fizeram brilhar o ano do jogador. Não é um monstro de números, de golos e estatísticas, mas a preponderância que mostrou no funcionamento das equipas foi finalmente reconhecido, num ano em que foi estrela no Real Madrid e carregou a sua seleção até à final do Mundial. Por trás da figura simples e até tímida, Luka Modric esconde um passado que poderia tê-lo afastado dos relvados e do sonho de vir um dia a ser futebolista.

O talento entre os escombros da guerra

Foi algures entre as horas de vídeo captadas pelo especialista em vida selvagem Pavle Balenovic, que de forma inesperada se observaram os primeiros anos de vida de Modric. Ainda pequeno, o futuro craque acompanhava o gado que sustentava a família pelas colinas rochosas de Janesice, numa cena captada algures entre 1989 e 1990.

Nascido em 1985, Modric tinha apenas seis anos quando explodiu a guerra dos Balcãs, que durou entre 1991 e 1995. Os anos de tumulto e ameaças de desmembramento da Jugoslávia tornaram-se reais e a Croácia assumiu, definitivamente, a sua independência. As tropas jugoslavas, maioritariamente sérvias, invadiram o território numa tentativa de cortar as comunicações e o transporte entre os dois lados do país. No meio dessa ação, os militares sérvios acabaram por matar o avô do agora futebolista, precisamente nas mesmas colinas onde Modric passeava. O episódio trágico obrigou a família a deixar a aldeia de Modrici e a mudar-se para a cidade de Zadar, na costa croata.

Modric passou a viver num hotel como refugiado mas, apesar da situação trágica que poderia afastá-lo do futebol, o miúdo teimava em colocar as suas caneleiras de Ronaldo – o craque brasileiro –, na bola e desenhar jogadas entre os escombros e os destroços.

“Havia esse rapaz que costumava jogar à bola à volta do parque de estacionamento do hotel durante todo o dia”, conta Josip Bajlo, presidente do NK Zadar, ao “The Guardian“. Sem condições financeiras dos pais para poder seguir o seu sonho, foi a ajuda de um tio que lhe permitiu ter a oportunidade de começar a jogar no NZ Zadar, o clube local.

À imagem da geração croata que cresceu no meio da guerra, Modric evita tocar no assunto. “Não gosto de voltar a essas coisas. Está tudo no passado”, confessou ao “USA Today” durante o Mundial 2018, enquanto explicava que a guerra moldou o povo croata. “Tudo influencia. Tornou-nos resilientes como pessoas, como nação”.

De refugiado a estrela mundial

As capacidades que já demonstrava com apenas 12 anos levaram Modric a tentar ganhar um lugar na equipa do Hajduk Split, apesar de jogar já no NZ Zadar. Foi rejeitado devido ao seu físico frágil. ”Quando eu era criança e era mais pequeno que todos os outros, foi difícil. Os miúdos grandes eram sempre melhores jogadores. Mas quando todos crescem, passa a resumir-se em talento. Todas as questões a que tinha que responder, agora pararam”, explicou em 2011 ao “Daily Mail”.

A notícia de que Modric tinha tentado mudar de clube chegou aos ouvidos de Tomislav Basic, o homem que o levou para o Zadar e que se tornou numa espécie de pai substituto. O biológico estava ausente, um dos muitos croatas que largou tudo para defender o país no conflito. E, como tal, coube a Basic ensinar valiosas lições ao jovem. A tentativa de fuga para o Split valeu-lhe um castigo.

Encontro entre Basic e Modric, antes da sua morte em 2014

“Fui ao Hajduk Split fazer uns testes sem o Basic saber, que era o diretor do NZ Zadar na altura. Disseram-me que ainda era cedo e tive que voltar para o NZ Zadar. Então ele disse-me: ‘Se não és bom para o Hajduk Split, não és bom para o NZ Zadar. Não podes treinar connosco’.”, revelou Modric ao jornal “Marca“. “Passei algumas semanas assim [sem treinar no NZ Zadar]. Dessa vez, disse-me para pendurar os braços numa barra para ver se podia crescer, era o conceito dele”. Dois ou três meses depois já Modric estava de volta à equipa.

Foi Basic quem incentivou Modric a continuar a lutar por um lugar no futebol – e até conseguiu que fosse prestar provas ao Dínamo Zagreb, onde acabaria por ficar com apenas 15 anos. “A família não tinha dinheiro para lhe comprar camisolas e caneleiras, por isso dei-lhe umas”, explicou o técnico à “UEFA”.

Em 2002, a mudança para o Dínamo revolucionou a carreira do croata. A falta de experiência ainda o levou a ser emprestado durante dois anos, mas regressou ao clube para quatro épocas que terminaram com a transferência para o Tottenham, em 2008, por cerca de 20 milhões de euros.

A sua capacidade como box to box foi se desenvolvendo até que chamou à atenção de clubes como o Real Madrid, onde está desde 2012, contratado por 30 milhões de euros. Ainda assim, tanto em Londres como em Madrid, Modric viveu alguns problemas de adaptação, resolvidos com as mudanças de treinadores nos respetivos clubes e que culminaram com o nível exibicional que apresenta em 2018 e que lhe valeu o estatuto de melhor do mundo.

Quando recebeu o prémio The Best, Modric lembrou o ídolo de sempre e herói da histórica seleção que, no período conturbado do pós-guerra, emocionou os croatas com uma prestação soberba no Mundial de 1994 nos EUA. Na primeira competição mundial como nação independente, a Croácia chegou às meias-finais e ficou a um passo da glória. Os heróis da equipa transformaram-se em ídolos dos miúdos e Modric não foi exceção.

“Quero também agradecer ao meu ídolo, o capitão da equipa da Croácia 1998 [Mundial] e a minha grande inspiração, Zvonimir Boban, que nos deu a inspiração de que poderíamos fazer grandes coisas na Rússia”, disse perante um Boban comovido.

O ódio a Modric

Se dentro de campo a vida corre bem ao croata, fora dele nem tudo é tão fácil. A aparente simplicidade e vida modesta do jogador tem sido posta em causa por acusações de problemas com a justiça – e que transformaram o herói da seleção numa espécie de vilão, pelo menos na perspetiva de alguns croatas.

Uma investigação que teve início em 2015 colocou um homem em conflito com a justiça. Zdravko Mamic, o homem todo poderoso do futebol croata era acusado de evasão fiscal e apropriação indevida de fundos. O dinheiro provinha de contratos que fazia com os jogadores que estavam a começar a carreira e através dos quais teria direito a percentagens das suas transferências. No meio de toda esta confusão encontrava-se Modric, acusado de desviar metade dos fundos pagos pelo Tottenham ao Dínamo de Zagreb, depois entregues a Mamic.

Depoimento de Modric no caso de Mamic

O croata foi chamado a depor em 2017. As declarações controversas, onde Modric revelou não se recordar dos pormenores e valores do contrato, acabaram por conduzir a uma acusação de falso testemunho. De acordo com o “Goal“, o médio explicou que as autoridades o arrastaram da concentração da seleção e o questionaram por várias horas durante a noite, deixando-o demasiado cansado para entender corretamente as declarações que assinou.

A aparente contradição das declarações foi vista pelos adeptos croatas como uma forma de proteger o odiado Zdravko Mamic. A figura do herói da seleção ficava inevitavelmente manchada e os adeptos não perdoaram. Na parede do hotel de Zadar que albergou a família refugiada de Modric escreveram em tom de ameaça: “Luka, vais lembrar-te deste dia”. Este foi o pretexto ideal para os adeptos do Hajduk Split entoarem cânticos de ódio a Modric, antigo jogador dos rivais do Dínamo.

A acusação acabou curiosamente por cair, numa decisão dos tribunais croatas revelada poucas horas antes da entrega da Bola de Ouro. O final perfeito para um ano de sonho em que o miúdo ultrapassou o ídolo e herói croata – e mostrou que está por direito no mesmo patamar do craque que carregava nas suas caneleiras, entre fintas e passes de génio no parque de estacionamento de Zadar.

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